20110504

Ai. A gente nem vê...

Ai senhor das furnas
que escuro vai dentro de nós
rezar o terço ao fim da tarde
só para espantar a solidão
e rogar a Deus que nos guarde
confiar-lhe o destino na mão

De que adianta saber as marés
os frutos e as sementeiras
tratar por tu os ofícios
entender o suão e os animais
falar o dialecto da terra
conhecer-lhe o corpo pelos sinais

E do resto entender mal
soletrar assinar em cruz
não ver os vultos furtivos
que nos tramam por detrás da luz

Ai senhor das furnas
que escuro vai dentro de nós
a gente morre logo ao nascer
com olhos rasos de lezíria
de boca em boca passando o saber
com os provérbios que ficam na gíria

De que nos vale esta pureza
sem ler fica-se pederneira
agita-se a solidão cá no fundo
fica-se sentado à soleira
a ouvir os ruídos do mundo
e a entendê-los à nossa maneira

Carregar a superstição
de ser pequeno ser ninguém
mas não quebrar a tradição
que dos nossos avós já vem.


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7 comentários:

Maria Luiza disse...

Olá, Fa, que delícia ouvir a música e ler esse poema tão tocante. Obrigad pela excelente partilha! Bjbjbj!

teresa disse...

só tu miga para descobrires esta preciosidade , eh eh eh ...

beijocas grandesssss ..

xistosa - (josé torres) disse...

Quem entende o suão, aquela 'brisa' que aperta e martiriza os mais fracos?
Que os ancestrais temiam e continua a ceifar...
Não é superstição.
É a afirmação da vida perante a morte!!!

Luís Coelho disse...

Bom dia Fá menor
Ontem estive aqui e quis escrever mas o cansaço era tanto que nada consegui dizer.
Obrigado pela música que me chega nesta madrugada e pela mensagem de rara beleza. Bem hajas.

Lilá(s) disse...

Que coisa linda!
Bjs

gaivota disse...

lindíssimo vídeo! o tema já conhecia, está muito enquadrado das imagens...
beijinhos

Ailime disse...

Fá, boa tarde!
Belíssimo!
Obrigada pela partilha.
Não conhecia.
Beijinhos.
Ailime