quinta-feira, junho 25, 2020

História de uma saudade

















Recordo com nostalgia as viagens com a família quando as crianças eram pequenas.
Ainda retenho na lembrança as belíssimas paisagens que pude observar. Os acampamentos - bons tempos - as crianças brincavam na praia… desfrutávamos do contacto agradável da Natureza.

Certa vez, numa dessas viagens, acampámos na Serra de Sintra. Como nos deliciámos ao ouvir, à noite e à luz de velas, canções lindas ao som de violas, cantadas por um grupo de jovens acampado ao nosso lado! Pela noite dentro, uma sensação agradável ao ouvir os mochos e as corujas. Maravilhoso mesmo foi o despertar ao som do chilrear da passarada!

São muitos os episódios interessantes que gosto de lembrar, por ocasião destas viagens, durante a infância dos meus meninos, quando eles gostavam de andar connosco!

Foram anos inesquecíveis, impossíveis de repetir e que se eu pudesse teria parado no tempo!

(repescado)

terça-feira, junho 23, 2020

O essencial é invisível aos olhos

"- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui – disse a voz – debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa – disse a raposa.
- Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda…
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar: - O que é que quer dizer “cativar”?
- Vê-se logo que não és de cá – disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens – disse o principezinho. - O que é que "cativar" quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não – disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que é que "cativar" quer dizer?
- É a única coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer estar ligado a alguém, “criar laços” com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
- Parece-me que estou a começar a perceber – disse o principezinho. - Sabes, há uma certa flor...tenho a impressão que estou ligado a ela...
- É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se cada coisa cá na Terra...
- Oh! Mas não é da Terra! - disse o principezinho.
A raposa pareceu ficar muito intrigada.
- Então, é noutro planeta?
- É.
- E nesse tal planeta há caçadores?
- Não.
- Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?
- Não.
- Não há bela sem senão...- disse a raposa.
Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver ligada a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor...cativa-me! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que cativamos - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos rituais.
- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual, à quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi assim que o principezinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
Depois acrescentou:
- Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho lá foi ver as rosas outra vez.
- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. - Não há ninguém ligado a vocês e vocês não estão ligadas a ninguém. Vocês são como a minha raposa era. Era uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora, ela é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sózinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a ela que eu reguei. Porque foi a ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu vi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.
E então voltou para o pé da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer."

(Antoine de Saint-Exupéry – O Principezinho)

sábado, junho 20, 2020

Atendei-me, Senhor

Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor
Atendei-me, Senhor.

Sofri por Vós, Senhor, toda a afronta,
E a confusão cobriu o meu rosto.
Sou um estranho para os meus irmãos,
Um desconhecido para os filhos de minha mãe.
Devorou-me o zelo pela vossa casa,
Caíram sobre mim os insultos contra Vós.

Para Vós, Senhor, a minha oração,
Pelo vosso amor vinde em meu auxílio.
Ouvi-me, Senhor!
Pela Vossa bondade e Graça.
Pela Vossa imensa compaixão
Voltai-vos para mim.

Atendei, humildes, e alegrai-vos,
Buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.
O Senhor atende os pobres
e não despreza os que vivem sem liberdade.
Louvem-n’O a terra e os céus,
os mares e tudo o que neles se move.

SALMO 68
Salmo Responsorial do 12.º Domingo Comum ano A

Pela Vossa grande Misericórdia.mp3

Partitura da música, mas letra dos versículos diferente

Partitura com arranjos para viola


domingo, junho 07, 2020

Digno de Louvor e de Glória para sempre

Dan. 3
Bendito sois Senhor Deus de nossos pais
Bendito o vosso nome glorioso e santo
Digno do supremo louvor e exaltação eterna

Bendito sois no templo da Vossa Glória
Digno do supremo louvor e exaltação eterna

Bendito o Senhor que domina as profundidades
O Senhor que está sentado sobre os anjos
Digno do supremo louvor e exaltação eterna

Bendito o Senhor no trono do seu reino
Digno do supremo louvor e exaltação eterna

Bendito o Senhor no firmamento dos céus
Digno do supremo louvor e exaltação eterna

(Salmo Responsorial, SS. Trindade, ano A)

Em mp3

Outra versão:

sábado, junho 06, 2020

quarta-feira, junho 03, 2020

Philia – amor de amizade



“Ama e faz o que quiseres. A medida do amor é amar sem medida.” (Santo Agostinho)

Philia é o sentimento de amizade, simpatia e afeição por alguém.
É uma forma de amar.
É amor de ternura, alegre, expansivo.
É saber ouvir e aconselhar.
É também confiar.
É querer bem a alguém, em vez de o possuir.

Em Português só temos uma palavra para Amor, mas ele contempla três vertentes: o amor Philia - esse amor de amizade; o amor Eros, que é o amor erótico, apaixonado; e o amor Ágape - o amor de Deus, aquele que devemos nutrir pelo próximo, até por aqueles de quem não gostamos. A partir daí pode perceber-se melhor o amor.

Acho engraçada a expressão: “Amizade é o amor sem sexo”. (Onde é que eu já ouvi isto?)
Será que amizade poderá ser amor sem sexo?
Poderá haver amizade entre duas pessoas de sexo diferente?
Será que esta é sempre verdadeira amizade ou poderá evoluir para outros estádios?
Terá alguma componente de simpatia romântica?

Amizade será, também, o amor conjugal realizado?
Philia e Eros que terão em comum?

Penso que amizades grandes e incondicionais, às vezes podem confundir-se com outro tipo de amor. Se calhar conviria saber fazer a distinção, o que, se calhar, nem sempre será fácil.

O que é certo é que na amizade se correm riscos, se esta descambar para além do que na realidade é (amizade) ou, sobretudo, se não for recíproca.

Às vezes, aposta-se numa amizade e, mais tarde, surgem desilusões.
Afinal, na amizade nem sempre tudo corre bem. Porquê? O que faltará? Lealdade? Reciprocidade?

Para não nos magoarmos, convém que saibamos, também, fazer a distinção entre “amigos” e apenas “conhecidos”. Não podemos considerar verdadeiramente “amigos” todos aqueles com quem, de certo modo, nos relacionamos.

Nesses relacionamentos deverá entrar a outra dimensão do amor – o Ágape. Este está acima do Philia e do Eros e nunca nos magoará, uma vez que não exige reciprocidade.

E, tanto Philia como Eros tem de ter Ágape à mistura, quando não... falta-lhes a parte essencial para que sejam completos e verdadeiros.

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