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domingo

“O amor materno é o único que poderá ser comparável ao de Deus”

«Deus é exactamente como as mães. Liberta seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos. 

Deus é exactamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez mais saudade, mas não sabe o caminho, não sabe por onde os filhos foram, só pode suplicar que não se percam e não se percam da vontade de voltar. (…)

Deus como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. Qualquer bulício Lhe acelera o coração. Se existem passos em redor de Sua casa, se alguma voz o  chama, palpita como doido de alegria na esperança de ter um filho em visita. (…) 
Exactamente como as mães, Deus cozinha seus pratos favoritos e acredita que agora ficarão para sempre ou, ao menos, regressarão todos os fins-de-semana, todos os meses, que não vão ficar separados, sem notícias tanto tempo, porque dói demasiado. (…)
Deus, como são as mães, tem a impressão que vai morrer se não voltar a ver os filhos. (…)
 
Todos deveríamos amar como amam as mães, que julgo ser como Deus ama.»

sugestão de leitura:

terça-feira

Arcanjo São Miguel, defendei-nos!

São Miguel Arcanjo, defendei-nos neste combate, 

sede o nosso auxílio contra as maldades e as ciladas do demónio. 

Instante e humildemente vos pedimos que Deus sobre ele impere.
 
E vós, Príncipe da Milícia Celeste, com esse poder divino, 

precipitai no inferno a satanás e aos outros espíritos malignos 

que vagueiam pelo mundo para perdição das almas. 

Ámen.

_________
Adenda:
Festa de S. Miguel Arcanjo: 29 de Setembro

Começa a 20 de Setembro a Novena a São Miguel Arcanjo
Rezar diariamente durante 9 dias (de 20 a 28 de Setembro) estas orações: 

Glorioso São Miguel Arcanjo, o primeiro entre os Anjos de Deus, guarda e protector da Igreja Católica, lembrando de que Nosso Senhor vos confiou a missão de velar pelo seu povo, em marcha para a vida eterna, mas rodeado de tantos perigos e ciladas do dragão infernal, eis-me prostrado a vossos pés para implorar confiadamente o vosso auxílio, pois não há necessidade alguma em que não possais valer. Sabeis a angústia por que passa a minha alma. Ide junto a Maria, nossa Mãe muito amada, ide a Jesus e dizei-lhe uma palavra em meu favor, pois sei que Eles nada vos podem recusar. Intercedei pela salvação da minha alma e, também agora, por aquilo que tanto me preocupa: 
(Fazer o pedido) 
E se o que peço não é para glória de Deus e o bem da minha alma, obtende-me paciência e que eu me conforme com a Vontade Divina, pois sabeis o que é mais do agrado de Nosso Senhor e Pai. 
Em nome de Jesus, Maria e José, atendei-me. Ámen. 

Rezar, depois, 9 Glória-ao-Pai em acção de graças por todos os dons concedidos por Deus a São Miguel e aos Nove coros de Anjos: 
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Ámen. 
..............

Quarenta dias antes desta festa de São Miguel Arcanjo, começa a Quaresma de S. Miguel Arcanjo, que é rezada diariamente, entre 15 de agosto e 29 de setembro - devoção que se deve a São Francisco de Assis e difundida através dos seus discípulos.
Mas também pode ser feita em qualquer outra época do ano, por um período de 40 dias

Por se tratar de uma devoção privada, os fiéis que a praticam são livres para adoptar as orações de sua preferência, no entanto podem encontrar roteiros nos links acima.

sábado

Um labirinto







sugestões de leitura: 

1984 de George Orwell

(adenda)


terça-feira

Oração para pedir o bom humor

 

(De S. Tomás Moro) 

Concede-me, Senhor, uma boa digestão, mas também algo para digerir
Concede-me um corpo saudável, e o bom humor necessário para o manter
Concede-me uma alma simples que saiba valorizar o que é bom
que não se amedronte diante do mal
e que encontre os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar

Dá-me uma alma que não conheça o aborrecimento
nem as murmurações,
nem os suspiros,
nem os lamentos,
nem preocupações excessivas com esse obstáculo chamado "eu"

Concede-me, Senhor, o dom do sentido de humor
Permite-me a graça de aproveitar o riso
para que saboreie nesta vida um pouco de alegria,
e possa partilhá-la com os outros.
Ámen

S. Thomas More - Original em inglês in: Senza Pagare

sábado

O preço e o valor; e o sítio certo

Um pai, em determinado dia, chamou o filho e disse-lhe:
- Filho, vou dar-te este relógio, que é muito especial para mim. É um relógio muito antigo do teu bisavô. Há mais de 100 anos que está na nossa família. Talvez seja a melhor herança que eu te possa deixar. Mas antes, quero que procures saber quanto vale. Vai ali ao café em frente e diz às pessoas que lá estiverem que queres vendê-lo, para ver quanto te dão por ele.

O filho lá foi. Quando voltou disse que, lá no café, o máximo que lhe ofereceram foi 10€, porque disseram que era velho. Então o pai disse:
- Agora vai ao relojoeiro e faz o mesmo.
O jovem assim fez e na relojoaria conseguiu uma oferta de 30€ pelo relógio. O pai disse:
- Então agora quero que vás ao museu, nas primeiras horas da manhã, e mostres lá o relógio.
Ele assim fez. Chegou lá ainda antes de o museu abrir. Quando abriu, entrou e procurou por quem dirigia o museu para oferecer o relógio.

Quando voltou disse ao pai:

- O dono do museu ficou com os olhos brilhantes diante do relógio e, irradiando alegria, disse que o relógio é uma peça rara. Existirão no mundo apenas 100 exemplares deste relógio. Disse que algo assim não tem preço... de tão raro que é. Aconselhou-me a não vender, pois eu tinha nas mãos uma verdadeira jóia. Mas, se por acaso, eu me quisesse desfazer do relógio, que o procurasse em primeiro lugar, pois ele pagaria 50.000€ por ele.

O pai então disse:
- Filho, a herança que tenho para te deixar não é o relógio nem os 50.000€ que ele pode valer. A herança que te vou deixar é esta lição: não fiques irritado por não te darem o valor que mereces. Ninguém te vai dar o valor certo enquanto estiveres no lugar errado.
Quem sabe o teu valor é quem te aprecia; nunca fiques num lugar onde não te valorizam, um lugar que não combina contigo. Não sejas a pérola dos porcos. Conhece o teu valor!
O relógio já é teu. Ele pode valer 50.000€... mas escolher os lugares e as pessoas que são tão valiosos como tu, ah, isso não tem preço; isso tem valor! Eu queria que aprendesses que o lugar certo conhecerá o teu valor da maneira certa.

(desconheço o autor)

domingo

Palavras em tempo de pedras


"Quando as pedras frias
caem brancas e torcidas
sobre as palavras imperiais,
mordendo-lhes as raízes
como se fossem o contrário do que são,
fecham-nos a alma e ficamos sem saber
se as asas se quebram ou
se ficamos de pé à espera das próximas pedras."
(José Maria Brito Sj https://www.facebook.com/zemariasj) 


A natureza humana é tal que os pensamentos lutam para serem expressos em palavras faladas, e palavras faladas procuram se realizar através de acções – muitas vezes por caminhos tortuosos, que a pessoa que originalmente pronunciou as palavras não desejava nem previa.


Pedras? Não guardo nenhuma. Os castelos ganham imensa humidade.


No entanto, "as pedras clamarão"!

quinta-feira

O Amor, esse bicho papão


«O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.»

  (João Cabral de Melo Neto (09.01.1920 / 09.10.1999), Os Três Mal-Amados, falas da personagem Joaquim)


  A minha leitura:
 O texto é formado por imagens poéticas que revelam um apego aos seus bens – materiais, certezas, memórias, preocupações... –, que passou a desapego a partir do momento em que o amor entrou em cena; aí deixou de haver apego a tudo isso para só o amor fazer sentido. O amor vem perturbar toda a vida de quem ama.

 O amor comeu tudo aquilo a que eu chamava meu. Porque isso não era amor, mas egoísmo. Quem ama deixa de chamar seu ao que é seu, para dividir com os outros. Só assim se ama, deixando que o amor tome o que é meu para repartir com os demais. Só assim o amor se multiplica, se soma, se dá e se tem.  

  Se amo deixo de ser eu para ser tu, para ser nós.
 Se amo, aquilo que para mim é um bem fica para segundo plano, já não me apego a isso; mas também as minhas dores ficam suavizadas porque não ponho aí o meu foco, e, porventura, porque também recebo amor. O meu foco, ou objecto do meu amor, deixa de ser eu próprio para ser o outro a quem me dedico.

Já entre as primeiras comunidades cristãs ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Havia "um só coração e uma só alma” (Act 4, 32). Era o Amor que reinava, que os unia, de modo que não havia necessitados entre eles, porque tudo o que tinham o punham em comum.

Parece tão simples!
Então porque há tanto desamor no mundo?
E porque há tanta gente que não ama... e gente que não (se) deixa amar?

segunda-feira

Resiliência


«Um dia o Senhor de todas aquelas terras foi ter com um homem da sua confiança e disse-lhe: "Peço-te que empurres esta pedra naquela direcção." Era um imponente pedregulho, mas em virtude da sua lealdade, obediência, amizade, o homem pôs-se a empurrar. O imponente pedregulho, fazendo jus à sua imponência, não se mexia, mas o servo fiel durante meses a empurrou com todas as suas forças. Passado tempo, voltou o Senhor e foi ter com ele. Envergonhado, estafado, suado, o servo confessa que apesar de todos os seus esforços não conseguiu mover a pedra nem um centímetro. Responde o Senhor: "Não te pedi que a movesses, só te pedi que a empurrasses, e vejo que o fizeste muito bem. Olha agora para os teus braços e pernas, para a musculatura que desenvolveste, e não dês o tempo por perdido".» [autor desconhecido] 

"O que não nos mata, torna-nos mais fortes." [Nietzsche]


terça-feira

Todos os dias



Mulher, torna-te naquilo que és: Mulher. Com toda a tua essência, carisma, fragilidade, poder. 

Não precisas nem queiras ser super-homem – que não és: nem super, nem homem – apenas mulher, com todas as tuas especificidades: valoriza-as, sem entrares em competição com homem nenhum pelo que em ti é dom, encanto, genuíno. Mas tão-pouco deixes que te queiram escurecer o que de ti resplende. 

Afirma-te naquilo em que és igual e marca a tua diferença naquilo em que és diferente. 

Porque todos os dias são dias das mulheres… e também dos homens – criaturas de Deus: criados à Sua imagem e semelhança.

sábado

quarta-feira

Silenciosamente


Quando as palavras nos falham, quantas vezes é no silêncio que falamos!

É no silêncio que acolhemos o Mistério, que Ele nasce vida em nós.

É no silêncio que a caminhada se faz encontro. Tantas vezes oração.

Como sabe bem ouvir essa voz!

É por isso que eu, às vezes, sou muito ciosa  do meu silêncio.



sexta-feira

Miguel


Já nasceu. Sou oficialmente AVÓ.

Graças, meu Deus, pelo dom da vida.

(31 de Janeiro - Dia de S.João Bosco)

Pai e mestre dos jovens 
Deste a vida por nós. 
Hoje nós te louvamos 
Juntos numa só voz. 

D. Bosco, D. Bosco 
Cantemos, cantemos 
Glória, glória, 
Glória para sempre. 

Teu segredo é Maria 
Tua força é Jesus. 
Tua vida é dos jovens 
És caminho, és luz. 

Deste aos jovens a esp’rança 
Deste a vida, o amor, 
Deste a fé e a força 
Dum futuro melhor. 
 .
 Amen.

sábado

E Amar Sem Medida?


"Ama e faz o que quiseres.
Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.
A medida do amor é amar sem medida."
(Santo Agostinho)

E, no entanto, a cada tropeço e mais algum pontapé, encontram-se vidas tão pelas vias da morte, pelas ruas da amargura, pelos caminhos mais escuros, pelas veredas mais sombrias, pelas vielas da deseducação... pelos cruzamentos mais azedos e tristes... pelas pontes mais que deprimentes... 
"Não há nada mais triste do que a tristeza", disse alguém e com razão.

Falta tanto Amor nas vidas das pessoas!

"Que triste não saber florir!"
 (Alberto Caeiro)


quarta-feira

Sabe a Sal


Sabe a sal. Sabe a vida.
Estende-se um manto de ondas silêncio a tocar o céu. Não quero perturbar esse repouso e respiro desajeitada um eco só.
Queria que a água poluída do meu rio se escoasse até às profundezas por entre as rochas negras e, depois, o leito se deixasse banhar, qual ninfa, nesse apetecido azul. E o mar subiria corpo acima até os peixes lhe brincarem nos olhos.
Quem foi, quem disse, que o mar dos olhos também sabe a sal?

segunda-feira

Com Amor e Sangue

A música ainda não se fazia ouvir, mas o desfile dos pares em roda anunciava-se no terreiro, ao lado da capela.
A tarde ia ser de marchas; e o pai, com o seu par, encabeçava o desfile. Bem trajado, como sempre o fizera enquanto a vida lho permitira. Olhei-o, tranquila: ele parecia bem.
Mas a minha música era outra; e segui o meu caminho, estrada acima, pela berma de pedras soltas, rumo a casa. Caí. Os joelhos cravejaram-se de pedrinhas e o sangue jorrou em grossas gotas. Lavei-as com vinagre, de passagem pela casa de uma amiga, entrando por uma porta e saindo por outra, sem me deter. Deixei que por lá escorresse um rasto ácido e ensanguentado, marca de um trilho, talvez pedido de socorro, talvez semente; ou um brilho de estrela cadente, num registo fugido, demente.
Arrependi-me e voltei para me desculpar e limpar o chão que se empastava, ressequia; enquanto o pai chegava a casa, depois da dança, e dizia:
- Estou muito cansado, vou dormir.
Ainda pensei em oferecer-lhe de jantar, mas não valia a pena, ele não comia. E eu só podia responder-lhe: “Descansa em paz, meu pai!”
Mas respondi:
- Dorme bem, pai.
Porque a eternidade é um sonho sossegado para quem consegue dançar a vida com ritmo e equilíbrio. Com amor.

Pedras e pontes





Valerá a pena construir pontes para ultrapassar pedras?

As pedras no nosso caminho fazem-se sempre presença.

Tantas vezes dou comigo a partir pedra, a ser e fazer pontes para passar sobre obstáculos. Em tempo de “Natal dos simples”, “já me cansa esta lonjura”. Será que valerá a pena facilitar sempre o caminho a outros? A todos os outros? Será que cada um não deverá rasgar os seus próprios pés nas pedras que encontra no seu caminho e que, muitas das vezes, ainda faz rolar para o caminho dos outros?

Por vezes a ponte é uma ilusão, para lá dela não existe margem… existe sempre o outro lado, mas às vezes é um abismo. E ficamos, na melhor das hipóteses, ali… suspensos…

Mas:
“Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura”.

Depois de ultrapassadas as pedras, pode ser que os passos fiquem mais firmes.

quinta-feira

Adiante!


"Deixa a vida acontecer com tudo quanto inclui, tentações de todo o género, falta de coragem… Um santo vivo não está imóvel num nicho e o Espírito Santo não o abandona nos momentos difíceis. A grande prova de santidade não é não ter tentações nem deixar de sentir cansaço, não, é caminhar sempre, reagir, subir para Deus."

(Padre Maria Eugénio do Menino Jesus)

sábado

Os Barretes Novos

Costumava ouvir do meu pai muitas histórias. Hoje lembrei-me desta:

Há muitos anos havia um homem que tinha um filho que, quando lá se lembrava, pedia ao pai que lhe comprasse um barrete novo. Porque aquele que tinha, ou era já do ano passado, ou já estava fora de moda, ou que vinham aí as festas do S. João, ou porque algum amigo também tinha estreado um novo, ou…
E o pai, ainda que lhe fosse dizendo que ele não tinha ainda necessidade de outro, que ainda havia pouco tempo que lhe tinha comprado aquele, perante a insistência do filho e porque não o queria ver desgostoso lá lhe comprava outro barrete. E os outros, que ainda estavam em bom estado, ia-os guardando a todos dentro duma arca.
Isto foi acontecendo ao longo da juventude do filho, enquanto este ainda era solteiro, de modo que os barretes se iam acumulando na arca.
Quando o filho se casou e começou a governar a sua própria casa, nunca mais o pai lhe viu estrear um barrete novo.
A dada altura, quando lhe viu na cabeça aquele mesmo barrete, todo gasto e puído, o último que lhe comprara em solteiro, já havia uns três ou quatro anos, o pai interpelou-o sobre isso, “É que eu preciso de remir uma casa de família, e o que vou granjeando não dá para tudo..., se o pai ainda por lá tivesse algum que me desse…”, e o pai foi à arca e deu-lhe um dos barretes que já fora dele. Passado mais uns tempos: “Se o pai tivesse outro barrete que me desse, que este já nem parece barrete…”, e o pai lá tirava outro da arca e lho dava. E assim o filho foi gastando, um a um, os barretes que noutros tempos já não quisera.

E vá-se lá saber por que me lembrei disto hoje…

Quando a canga pesa, a vida dói. 

quarta-feira

Ai. A gente nem vê...

Ai senhor das furnas
que escuro vai dentro de nós
rezar o terço ao fim da tarde
só para espantar a solidão
e rogar a Deus que nos guarde
confiar-lhe o destino na mão

De que adianta saber as marés
os frutos e as sementeiras
tratar por tu os ofícios
entender o suão e os animais
falar o dialecto da terra
conhecer-lhe o corpo pelos sinais

E do resto entender mal
soletrar assinar em cruz
não ver os vultos furtivos
que nos tramam por detrás da luz

Ai senhor das furnas
que escuro vai dentro de nós
a gente morre logo ao nascer
com olhos rasos de lezíria
de boca em boca passando o saber
com os provérbios que ficam na gíria

De que nos vale esta pureza
sem ler fica-se pederneira
agita-se a solidão cá no fundo
fica-se sentado à soleira
a ouvir os ruídos do mundo
e a entendê-los à nossa maneira

Carregar a superstição
de ser pequeno ser ninguém
mas não quebrar a tradição
que dos nossos avós já vem.
(Isabel Silvestre - A gente não lê)

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