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sexta-feira

Pisei uma cobra

(reposição)

Já fez uns anos que pisei uma cobra. 

Não foi com a roda do carro como da outra vez e morreu: ttrrrr... parecia pisar correntes. 
Não, foi com o salto do sapato: aarrggh... 
Eu distraída e: “pisaste uma cobra”, saltei! E era: mal olhei e pareceu-me. E fugi. Transpirei. Arrepiei-me, levantaram-se-me os cabelos em pé como se tivesse levado um choque eléctrico. Ela atingira-me no calcanhar (pelo salto do sapato acima) que eu bem senti... aarrggh!
Parecia fina, pequena... e estava morta. Dizem-me que fui eu que a matei... mas eu não acredito: só me gozam: tal pai tal filha, gente sem coração, sem dó nem piedade! 
Imaginam algo mais horrível para quem tem fobia a cobras? 


Mas agora, visto a uns anos de distância, esbatem-se os porquês da importância que lhe dei, e lembro-me de pormenores que então não ditei. Era lusco-fusco e, por isso, não a vi; e ela já estava morta. Só a senti depois de a ter pisado. Ajuízo, agora, que não era mesmo nada grande... nem grande coisa. Pelo contrário, afigura-se-me pequenota e mirradota; no entanto, para mim, foi obra!: não deixava de ser uma cobra. E eu que não vi nada. Só sei porque me disseram: "pisaste uma cobra". E eu que corri esbaforida, arrepiada, sacudindo os pés na estrada... olhem só se a tivesse visto, e se ela estivesse viva! E se corresse atrás de mim! Qual não seria o meu fim? 

Bah, lembrei-me disto, sei lá, porque neste ano já lá vai o tempo delas e, felizmente, não vi nenhuma, só ouvi alguém falar, à boca pequena, que tinha avistado uma... Que pena! 
Aarrrrgggggh


segunda-feira

Com Amor e Sangue

A música ainda não se fazia ouvir, mas o desfile dos pares em roda anunciava-se no terreiro, ao lado da capela.
A tarde ia ser de marchas; e o pai, com o seu par, encabeçava o desfile. Bem trajado, como sempre o fizera enquanto a vida lho permitira. Olhei-o, tranquila: ele parecia bem.
Mas a minha música era outra; e segui o meu caminho, estrada acima, pela berma de pedras soltas, rumo a casa. Caí. Os joelhos cravejaram-se de pedrinhas e o sangue jorrou em grossas gotas. Lavei-as com vinagre, de passagem pela casa de uma amiga, entrando por uma porta e saindo por outra, sem me deter. Deixei que por lá escorresse um rasto ácido e ensanguentado, marca de um trilho, talvez pedido de socorro, talvez semente; ou um brilho de estrela cadente, num registo fugido, demente.
Arrependi-me e voltei para me desculpar e limpar o chão que se empastava, ressequia; enquanto o pai chegava a casa, depois da dança, e dizia:
- Estou muito cansado, vou dormir.
Ainda pensei em oferecer-lhe de jantar, mas não valia a pena, ele não comia. E eu só podia responder-lhe: “Descansa em paz, meu pai!”
Mas respondi:
- Dorme bem, pai.
Porque a eternidade é um sonho sossegado para quem consegue dançar a vida com ritmo e equilíbrio. Com amor.

Ainda há histórias de amor que dão origem a lagoas

Não foi lenda nem conto de fadas. Não foi amor à primeira vista.
Costumo dizer que não o conhecia. Mas claro que sim, desde criança. Só que nunca me tinha chamado a atenção. Não era meu amigo, nem meu vizinho, nem sequer meu colega. Tínhamos familiares comuns, o que nos permitia cruzarmo-nos algumas vezes. Superficialmente. Mas nunca o tinha visto com outros olhos (com olhos de ver ao perto) – com olhos do coração.

Foi uma daquelas coisas de que não se está à espera, mas que se faz acontecer, sem querer:
Numa boda de casamento, percebo que os pés se tocam por baixo da mesa… cruzam-se os olhos, aparecem uns sorrisos marotos, as pálpebras baixam-se e o rubor dá sinal de si. Caramba, mas o que é isto?
Tento disfarçar os pulos que me fogem do peito e acho que consigo. Levo para a brincadeira a insistência dos pés debaixo da mesa. Acontecem ali duas conversas diferentes e desajeitadas – a que as bocas falam e a que os pés dizem, mas esta segunda linguagem é-me desconhecida e desconcertante. E cabem naquela mesa vários tipos de iguarias quentes e saborosas: as que reconfortam o estômago; as que enchem os olhos; as que inebriam os sentidos; as que alimentam a fantasia…

E depois das sobremesas e das sobmesas nada nunca mais foi igual.

Há histórias de amor que dão origem a lagoas. Há histórias de amor que nos deixam lagoas para sonhar e para aprender antes de as mergulhar. Foi assim que se passaram dias e semanas e meses e mais meses antes de tentarmos nadar. Não se passava da margem, cada qual na sua. As margens também são sublimes e deleitosas, vibrantes de flores e de suavidade, agradáveis de se passear.
E nesses longos meses bastava um olhar, um sorriso, um aceno ao longe para levitar.

Até que começou a aquecer e chegaram as festas de Verão. E, nas tasquinhas, as nossas merendas saborosas de uns bons petiscos com pão. E debaixo da mesa os pés sempre na mesma primeira aflição. E, no arraial, a música a chamar-nos para um abraço disfarçado de dança, um encosto, um aperto, um acelera-coração.

Depois veio o Inverno com o calor dos bailes no Casarão e o embalo nessas danças de salão. E aquela chapada que dei a outro por se tentar meter pelo meio e armar confusão. E o meu amado foi embora, como que arrependido, envergonhado, daquela situação.

E seguiram-se-me as dúvidas se ele gostava de mim ou não. Aliás, certezas ainda eu não tinha tido, pois aquela boca nunca se quisera abrir para, (nem) de viva voz, me dizer aquilo que eu queria ouvir.

Bem, se era assim, teria de esperar, pois a um Inverno haveria de suceder uma Primavera e, talvez, dias de luar.

E eis que chegou Março, florido e ensolarado, e num domingo à tarde – eram os meus 20 anos – ele fez-se convidado. Na mesa esperavam-no uns acepipes para começar.
Foi ficando e foi voltando durante um mês, e deixando-se ficar, meio esquecido, meio perdido, sem eu bem saber o que o seduzia, pois estava a ver que ele não se descosia. Até que tive de tomar coragem:
- Eu gosto de ti… mas não sei bem se tu gostas de mim…
E ele, numa voz quase sumida:
- Eu gosto mais do que isso… eu amo-te.

Oh, céus! Como estava difícil o primeiro beijo de acontecer! Como a água desta lagoa estava custosa de se dar a beber!

(Passados uns bons anos, o primeiro peixinho, nascido desta lagoa de amor, conheceu uma belíssima açoriana, e com ela formou a sua própria lagoa numa destas ilhas mais maravilhosas que me é dado conhecer).
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quarta-feira

Gata Borralheira

O amor tem destas coisas: por vezes acaba. Até o dia que nasce com um sol esplendoroso pode ficar carregado de nuvens negras. Porque teremos nós a capacidade de mudar?
Um amor para a vida inteira é, cada vez mais, uma utopia. Sonha-se com o príncipe encantado, ou com a Cinderela, e depois, o príncipe, afinal, é um sapo, ou à Cinderela, descobre-se que não lhe serve o sapato.

Um Príncipe e uma Cinderela – uma história banal: Filomena, menina-mulher, casara com o príncipe dos seus sonhos, depois de meia dúzia de meses de romance, em que por uma meia dúzia de vezes se olharam e outra meia se tocaram. Nesse dia, sentira-se a princesa que ele tinha resgatado de Gata Borralheira, daquela sub-vida em que os maus tratos físicos e psicológicos eram o seu pão de cada dia. Começara, enfim, a viver. Emergira e sentira-se flutuar numa doce magia, numa felicidade dourada e reluzente, num sonho tão cor-de-rosa, que até estremecia com medo de acordar e vir a descobrir que aquele sonho era um pesadelo.
Decorreram semanas de mel e luar em que ele, amante apaixonado, sofregamente, a ensinou a ser mulher, a descobrir sensações nunca antes imaginadas. E aprendeu o que era amar, o que era desejo, o que era o êxtase e a plenitude da felicidade.
Exalando um mar transbordante de águas quentes – escaldantes até – cega de amor e de vida, passavam-lhe ao lado alguns pormenores. O seu marido, cada vez mais, vivia na noite, com o álcool como companhia principal; mas ela desculpava, porque ele a amava sempre com intensidade, impetuosamente. Se existiam algumas diferenças, essas eram em si. Descobriu porquê: estava grávida. Ele confiou-lhe lágrimas de alegria, e nela elevou-se o instinto maternal – ele queria um filho. Sublime contentamento, suprema negridão. Não, não era uma filha que ele queria…

O modo como se desenrola uma história, apesar de contornos peculiares, não é muito diferente de outras histórias. Filomena carregava uma filha no ventre e, ao mesmo tempo, foi carregando agressões, violações, fome; toda a espécie de violência física, verbal e psicológica, por parte de um homem cobarde e irracional que, sob a capa do álcool, parecia lograr um só propósito. E a filha nasceu… e morreu em seguida.
O que sempre temera acabara de acontecer.

Inspirado em: Mulheres maltratadas

25 de Novembro: Dia Internacional para a Erradicação da Violência sobre as Mulheres

O número de crimes de Violência doméstica registados no 1.º semestre de 2009 subiu 9% face ao mesmo período de 2008. (APAV)

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