segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Ainda há histórias de amor que dão origem a lagoas

Não foi lenda nem conto de fadas. Não foi amor à primeira vista.
Costumo dizer que não o conhecia. Mas claro que sim, desde criança. Só que nunca me tinha chamado a atenção. Não era meu amigo, nem meu vizinho, nem sequer meu colega. Tínhamos familiares comuns, o que nos permitia cruzarmo-nos algumas vezes. Superficialmente. Mas nunca o tinha visto com outros olhos (com olhos de ver ao perto) – com olhos do coração.

Foi uma daquelas coisas de que não se está à espera, mas que se faz acontecer, sem querer:
Numa boda de casamento, percebo que os pés se tocam por baixo da mesa… cruzam-se os olhos, aparecem uns sorrisos marotos, as pálpebras baixam-se e o rubor dá sinal de si. Caramba, mas o que é isto?
Tento disfarçar os pulos que me fogem do peito e acho que consigo. Levo para a brincadeira a insistência dos pés debaixo da mesa. Acontecem ali duas conversas diferentes e desajeitadas – a que as bocas falam e a que os pés dizem, mas esta segunda linguagem é-me desconhecida e desconcertante. E cabem naquela mesa vários tipos de iguarias quentes e saborosas: as que reconfortam o estômago; as que enchem os olhos; as que inebriam os sentidos; as que alimentam a fantasia…

E depois das sobremesas e das sobmesas nada nunca mais foi igual.

Há histórias de amor que dão origem a lagoas. Há histórias de amor que nos deixam lagoas para sonhar e para aprender antes de as mergulhar. Foi assim que se passaram dias e semanas e meses e mais meses antes de tentarmos nadar. Não se passava da margem, cada qual na sua. As margens também são sublimes e deleitosas, vibrantes de flores e de suavidade, agradáveis de se passear.
E nesses longos meses bastava um olhar, um sorriso, um aceno ao longe para levitar.

Até que começou a aquecer e chegaram as festas de Verão. E, nas tasquinhas, as nossas merendas saborosas de uns bons petiscos com pão. E debaixo da mesa os pés sempre na mesma primeira aflição. E, no arraial, a música a chamar-nos para um abraço disfarçado de dança, um encosto, um aperto, um acelera-coração.

Depois veio o Inverno com o calor dos bailes no Casarão e o embalo nessas danças de salão. E aquela chapada que dei a outro por se tentar meter pelo meio e armar confusão. E o meu amado foi embora, como que arrependido, envergonhado, daquela situação.

E seguiram-se-me as dúvidas se ele gostava de mim ou não. Aliás, certezas ainda eu não tinha tido, pois aquela boca nunca se quisera abrir para, (nem) de viva voz, me dizer aquilo que eu queria ouvir.

Bem, se era assim, teria de esperar, pois a um Inverno haveria de suceder uma Primavera e, talvez, dias de luar.

E eis que chegou Março, florido e ensolarado, e num domingo à tarde – eram os meus 20 anos – ele fez-se convidado. Na mesa esperavam-no uns acepipes para começar.
Foi ficando e foi voltando durante um mês, e deixando-se ficar, meio esquecido, meio perdido, sem eu bem saber o que o seduzia, pois estava a ver que ele não se descosia. Até que tive de tomar coragem:
- Eu gosto de ti… mas não sei bem se tu gostas de mim…
E ele, numa voz quase sumida:
- Eu gosto mais do que isso… eu amo-te.

Oh, céus! Como estava difícil o primeiro beijo de acontecer! Como a água desta lagoa estava custosa de se dar a beber!

(Passados uns bons anos, o primeiro peixinho, nascido desta lagoa de amor, conheceu uma belíssima açoriana, e com ela formou a sua própria lagoa numa destas ilhas mais maravilhosas que me é dado conhecer).
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17 comentários:

  1. Todas as histórias de amor são belas!
    Um beijo
    Daniel

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  2. Lindo! E então o que aconteceu ao queijo?!
    Gostei muito da sua história de amor, e este é um óptimo dia para a publicar,
    beijinhos

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  3. Daniel,

    e Felipa,

    obrigada!

    :)

    ah, o queijo...lol
    bem, queijo é muito bom e eu gosto, gostamos... mas ficou lá do outro lado, não tive direito àquele.
    (ninguém me pagou para fazer a publicidade) ;)

    Beijinhs

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  4. gostei tanto da tua história de amor miga ,,, que linda .....
    gostei muito ,, ai que romanticos nós andamos , eh eh eh ..

    jinhos ,..

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  5. eheh, não é?
    Obrigada Teresa.
    bjinho

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  6. Gostei da tua história.
    Que é banal, mas que a tua narrativa tornou deliciosa.
    Sabes contar...
    Querida amiga, boa semana.
    Beijos.

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  7. Histórias de amor...Também há as histórias dos (des)amores, mas gostei.

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  8. As histórias de amor são lindas, principalmente quando acabam bem.
    Linda e simples a tua história.
    Bjs

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  9. o teu peixinho com aroma de "terra nostra"
    lindo!!!!
    beijinhos

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  10. Continuam a ser deliciosas as suas histórias,....acima de tudo porque são verdadeiras.
    Parabéns e felicidades.
    Bjs
    Clara

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  11. excelente e ,ao mesmo tempo ,singela narrativa



    .
    um beijo

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  12. é tão simples, quando do simples se vê grandeza, neste caso... amor.

    mais do que grandeza é a beleza, e aí, volta o simples e como, do simples conjugar das palavras, se dá tanta cor a uma estória de amor... tão banal, tão simples.

    em resumo...
    um amor verdadeiro, sentido na sua simplicidade.

    um expressar esse amor, por palavras, com simplicidade.

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  13. Gabriela

    e Sérgio,

    Obrigada!


    Tudo pode ser tão simples, banal,
    mas cada um sente a sua como especial.

    Beijinhos

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  14. Linda a forma como fala da sua história!Uma história de amor!

    Obrigada por partilhá-lha connosco.

    Um abraço
    Olinda

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  15. fázinha como é ?? já foste ao blog da utilia ?? ,, eh eh eh vai lá que tás convidada para a proxima caminhada , a quaresma ... tamos á tua espera ..
    jinhos ..

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  16. Amiga Fá,
    Que história de amor linda.
    Fiquei comovida.
    Agora mais frutos desse amor surgirão.
    Muito obrigada por partilhar momentos tão especiais da sua vida.
    Santo Domingo.
    Beijinhos da
    Ailime

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«As palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável.»
(Sta Madre Teresa de Calcutá)
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