quarta-feira, novembro 25, 2009

Gata Borralheira

O amor tem destas coisas: por vezes acaba. Até o dia que nasce com um sol esplendoroso pode ficar carregado de nuvens negras. Porque teremos nós a capacidade de mudar?
Um amor para a vida inteira é, cada vez mais, uma utopia. Sonha-se com o príncipe encantado, ou com a Cinderela, e depois, o príncipe, afinal, é um sapo, ou à Cinderela, descobre-se que não lhe serve o sapato.

Um Príncipe e uma Cinderela – uma história banal: Filomena, menina-mulher, casara com o príncipe dos seus sonhos, depois de meia dúzia de meses de romance, em que por uma meia dúzia de vezes se olharam e outra meia se tocaram. Nesse dia, sentira-se a princesa que ele tinha resgatado de Gata Borralheira, daquela sub-vida em que os maus tratos físicos e psicológicos eram o seu pão de cada dia. Começara, enfim, a viver. Emergira e sentira-se flutuar numa doce magia, numa felicidade dourada e reluzente, num sonho tão cor-de-rosa, que até estremecia com medo de acordar e vir a descobrir que aquele sonho era um pesadelo.
Decorreram semanas de mel e luar em que ele, amante apaixonado, sofregamente, a ensinou a ser mulher, a descobrir sensações nunca antes imaginadas. E aprendeu o que era amar, o que era desejo, o que era o êxtase e a plenitude da felicidade.
Exalando um mar transbordante de águas quentes – escaldantes até – cega de amor e de vida, passavam-lhe ao lado alguns pormenores. O seu marido, cada vez mais, vivia na noite, com o álcool como companhia principal; mas ela desculpava, porque ele a amava sempre com intensidade, impetuosamente. Se existiam algumas diferenças, essas eram em si. Descobriu porquê: estava grávida. Ele confiou-lhe lágrimas de alegria, e nela elevou-se o instinto maternal – ele queria um filho. Sublime contentamento, suprema negridão. Não, não era uma filha que ele queria…

O modo como se desenrola uma história, apesar de contornos peculiares, não é muito diferente de outras histórias. Filomena carregava uma filha no ventre e, ao mesmo tempo, foi carregando agressões, violações, fome; toda a espécie de violência física, verbal e psicológica, por parte de um homem cobarde e irracional que, sob a capa do álcool, parecia lograr um só propósito. E a filha nasceu… e morreu em seguida.
O que sempre temera acabara de acontecer.

Inspirado em: Mulheres maltratadas

25 de Novembro: Dia Internacional para a Erradicação da Violência sobre as Mulheres

O número de crimes de Violência doméstica registados no 1.º semestre de 2009 subiu 9% face ao mesmo período de 2008. (APAV)

sexta-feira, novembro 20, 2009

Um sorriso



O sol encontra sempre um rasgo por onde brilhar.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Manda Teu Espírito

Ao meu redor
Procuro entender
O que virá
Se bem longe eu vou estar

Diante de Ti
Eu entreguei os meus caminhos
Pra Te sentir
E nunca mais chorar sozinho

Mas cansado estou
e fraco a esperar
que Tua doce voz
venha o meu sono despertar

Manda Teu espírito e vem me abraçar
Pra eu não chorar
Preciso de Ti aqui
Pra me consolar


Só Você faz o mar se acalmar
E traz paz iluminando o meu olhar
Sabes ouvir as dores do silêncio
E persistir em esquecer os meus lamentos

Sei que em Você
Encontro meu alento
Estendo as minhas mãos
Entrego os meus sentimentos

Manda Teu espírito e vem me abraçar
Pra eu não chorar
Preciso de Ti aqui
Pra me consolar


 (As Dores Do Silêncio, Rosa de Saron
Composição: Eduardo Faro)


quinta-feira, outubro 29, 2009

Ruído

É manhã. Por detrás das copas das árvores, o calor do sol quer espreitar. Os raios incidem sobre os fios finíssimos que uma fiandeira teceu de noite. Uma brisa levezinha faz dançar as folhas a um ritmo descompassado. Na esplanada do café, uma mesa com duas cervejas: pequeno almoço que as donas levam aos lábios no intervalo do cigarro e da conversa. No passeio, o sobe e desce de gente apressada. O barulho dos motores dos carros, que também sobem e descem, é misturado ao bater do martelo das obras do jardim e ao tilintar das garrafas vazias a baterem umas nas outras ao serem apanhadas do chão - ainda restos da latada. E, na frente dos meus olhos, apontamentos sobre a Carta de Ottawa nos quais tento, em vão, mergulhar.
Das duas uma: ou abstraio-me do que se passa à minha volta e me concentro no que preciso de estudar, aproveitando assim este tempo morto de espera, ou saio do carro e vou fazer uma caminhada, dar uma volta pelo jardim, respirar outro ar, beber de outras fontes. Desentorpecer as pernas, arejar a mente. Sim, parece-me bem. Esta segunda ideia é-me muito mais atraente.

domingo, outubro 25, 2009

Pai...



96 Outonos. Hoje, aqui. Era quantos farias se não tivesses ido embora.

Quantas vezes me disseste que partias, quando eu sabia que não era essa a hora. Mas volta e meia fazias birras, repetias. E tantas vezes o disseste que eu a sorrir te desmentia. Dizia-te que não. Que não podia ser, que estavas bem; mas bem não estavas, bem se via.
E as tuas forças começaram a diminuir a cada dia. E o que antes eram birras deixaram de o ser. Até que chegou o teu limite, e eu, desatenta, sem o perceber.
Não chegaste a ver este Outono. Era Verão quando partiste; quando deixaste de dar ais. Foste embora ainda há pouco tempo e hoje a dor me aperta mais.
Perdoa-me.
Perdoa-me, pai.
Perdoa-me porque não percebi os sinais...

sexta-feira, outubro 23, 2009

O Maior

«A forma de entender a fé é diferente de pessoa para pessoa, de um liberal para um ateu, de um teocrático para um cristão. Tem a ver com o relevo que é dado por cada um às suas vertentes familiar, afectiva, político-social, cultural, económica, religiosa e moral.

Para um liberal, cada uma destas vertentes é autónoma e independente, sem que nenhuma delas influencie qualquer outra. Como tal, a religião não influi nas opções de qualquer outra vertente. A fé é do domínio privado e pessoal.

Para um teocrático, todas as vertentes são influenciadas pela religião. Esta envolve e prevalece sobre todas as outras. Cada vertente não tem sentido em si mesma, nem nenhuma tem poder sobre qualquer outra. Todas são dominadas pela vertente religiosa, dependem exclusivamente dela, podendo mesmo ser humilhadas e desprezadas por ela quando levada ao extremo, tendo como resultado o fundamentalismo.

Num cristão, cada vertente tem a sua autonomia e identidade próprias, mas inter-relacionando-se como partes de um todo – de um só corpo. No centro deste corpo encontramos o Amor. Amor de/a Cristo que dinamiza e dá força a todas as vertentes da vida humana, procurando o equilíbrio entre todas. Conforme a sua vida e circunstâncias pessoais, assim cada pessoa encarnará a fé, sempre com Cristo como referência para a sua vida, que lhe dá sentido, a partir do seu interior e não por qualquer imposição externa. Cristo é o centro, a “pedra angular”, o amor que está no centro de tudo.

Um ateu exclui radicalmente a vertente religiosa, aceitando todas as outras. Se alguma das vertentes predominar será para fazer sobressair o ateísmo. O fenómeno religioso é encarado como alienação, estruturas de poder ou superstições, que não humanizam e que, por isso, têm de se eliminar.»

Fui buscar estas linhas a um texto que escrevi há algum tempo, apesar de toda a polémica que gerou, porque quando se aborda o tema religião é sempre passível de polémica, precisamente pelo acima exposto - cada pessoa tem o seu modo de encarar a fé.

O motivo de as trazer aqui, agora, está nas palavras de um ATEU que têm dado que falar.

Andei a ponderar se abordaria ou não essa matéria, com algum receio de que, ao fazê-lo, poderia dar importância demais a palavras loucas de quem não sabe do que fala.

Este é um assunto que já me chateia, pois acho que anda meio mundo incomodado com este atrevimento quando, na minha opinião, aquilo que transpira é apenas um monte de preconceitos de um ateu que se arroga em dono da verdade.

Sendo certo que todos temos direito à nossa opinião, ou à nossa crença ou não-crença, e a usar de liberdade de expressão na manifestação do que nos vai na alma, também é verdade que nos devemos saber colocar no nosso lugar e respeitar os lugares dos outros. E devemos tão mais saber fazê-lo quanto maior for o estatuto que a sociedade nos confere. Donde que este ateu deveria, assim, saber ter tento na língua.

Mas quando Caim mata é sempre por insegurança. É sempre por medo da sombra da sua vítima sobre si. Então há que aniquilá-la.
Ele não se contenta em ser grande.
Ele quer ser o maior!

Quão falível é a natureza humana!

E quanto é enorme Deus!
Infinitamente maior do que todo o pecado.


Adenda:
Ler também um texto sobre este assunto em: Crónicas de uma Peregrinação

domingo, outubro 18, 2009

Orientação missionária



Dai de graça o que recebestes de graça.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza

17 de Outubro é o Dia Mundial Para a Erradicação da Pobreza.


Mas que não se fique só por belas intenções. E que não seja só um dia.

sábado, outubro 10, 2009

O que me tira o sono



- Filho, quando é que ganhas para uns sapatos?
- O quê? Com duas horas por dia nas AECs?!


- Filha, como estás crescida!
- Também já não me vias há quinze dias!

sábado, outubro 03, 2009

O Inferno que escolhemos

"Deus desapareceu da política.
Por isso, a política tornou-se um Inferno."

Li isto e muito mais em
Crónicas de uma peregrinação
sob o título:
O Inferno Somos Nós.

Nunca tinha lido um retrato tão perfeito do inferno que escolhemos!

Por isso:

"Se ouvires a voz do vento
Chamando sem cessar
Se ouvires a voz do tempo
Mandando esperar.

A decisão é tua
A decisão é tua
São muitos os convidados
Quase ninguém tem tempo

Se ouvires a voz de Deus
Chamando sem cessar
Se ouvires a voz do mundo
Querendo te enganar

A decisão é tua
A decisão é tua
São muitos os convidados
Quase ninguém tem tempo

O trigo já se perdeu
Cresceu, ninguém colheu
E o mundo passando fome
Passando fome de Deus

A decisão é tua"

(Padre Zezinho - A Decisão é Tua)


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